quarta-feira, 30 de março de 2011

Remo e Paralímpicos

Na minha qualidade de representante da modalidade Remo na Comissão Executiva do Comité Paralímpico de Portugal, pediram-me um artigo sobre este tema. Depois do artigo pronto comunicaram-me que o dito só podia ter 2000 caracteres contando com os espaços. Tive que efectuar cortes o que desvirtuou todo o artigo. Coloco então o original aqui no meu Blog:


Remo e Paralímpicos
As Paralimpíadas, jogos desportivos para atletas portadores de deficiência iniciaram--se em 1960 na cidade de Roma começando, a partir daí, a realizar-se no mesmo local dos Jogos Olímpicos. Já em 1948, Sir Ludwig Guttmann organizou uma competição desportiva para Veteranos da II Guerra Mundial com lesões na coluna. Apenas em 1968, México e 1980, Moscovo, devido a boicotes políticos, problemas logísticos e falta de vontade dos países organizadores, os Jogos Paralímpicos não acompanharam os Jogos Olímpicos.
O número de atletas envolvidos nos Jogos tem vindo sempre a aumentar. De 400 em Roma, 3195 em Atlanta e mais de 4000 em Sidney. No que toca às modalidades náuticas, a Vela iniciou a sua participação na Austrália e o Remo conseguiu pertencer ao Movimento apenas a partir de Pequim.
Durante o ano de 2001, a Federação Internacional de Remo  (FISA) requereu, formalmente, ao Comité Paralímpico Internacional (IPC), a inclusão do remo nos Jogos Paralímpicos de 2008.
No entanto tornava-se necessário realizar dois Campeonatos Mundiais de remo adaptado, até ao ano 2005, e atingir a meta de 24 nações participantes nas Regatas de Remo adaptado no Campeonato do Mundo de 2004. No Campeonato Mundial de Remo de 2002, sete tripulações de diferentes nações estiveram em competição. Ainda em 2002 foi assinado o Protocolo de Remo Adaptado de Sevilha, onde a FISA e 36 das suas filiadas (Federações Nacionais de Remo) se comprometeram a desenvolver oportunidades para atletas portadores de deficiência poderem remar e a inscrever tripulações formadas por atletas com deficiência no Mundial de 2004.
O Remo entrou para o programa Paralímpico em 2005, e os Jogos Paralímpicos de Pequim foram a estreia nas Paralimpíadas. O termo "adaptado" quer dizer que o equipamento é modificado para a prática do desporto e não propriamente "adaptado" a cada atleta. A Federação Internacional de Remo (FISA) é o órgão máximo do Remo mundial. As corridas são realizadas num percurso de 1000 metros para todas as classes. Em Portugal, a modalidade é dirigida pela Federação Portuguesa do Remo (FPR), fundada em 1920.
A presença do desporto do Remo nas Olimpíadas deve-se a um excelente trabalho de José Nunes, treinador de Remo e funcionário da Federação Portuguesa do Remo que, contra todas as expectativas, foi eleito Presidente da Comissão de Remo Adaptado da FISA e desenvolveu um esforço hercúleo para conseguir que um grande número de países apoiasse e desenvolvesse a prática de remo adaptado no seu seio, com o intuito de conseguir uma representação mínima em Pequim.
O Remo foi o primeiro desporto a ser praticado ludicamente pelo homem, O Remo como meio de propulsão, que consiste em colocar a pá dentro de água com um ponto de apoio na borda da embarcação é utilizado desde sempre, Tendo começado, certamente pela utilização de um tronco flutuante, o Homem foi desenvolvendo embarcações cada vez mais sofisticadas através da união de troncos chegando até aos impressionantes Trirremes que utilizavam cerca de 170 remadores e foram usados no Mediterrâneo, onde os homens chegavam a morrer à fome, à sede ou em pleno combate nessas embarcações.
O Remo, como desporto de competição, é um dos mais antigos e tradicionais. Regatas entre galeras faziam parte das civilizações egípcias, gregas e romanas. Na Odisseia, Homero fala-nos numa viagem de Ulisses, pela ilha de Ítaca, num barco a remos, enquanto que na Eneida, Virgílio conta-nos que Eneias, príncipe de Tróia, homenageou seu pai, com uma disputa entre quatro barcos, movidos por duzentos remadores acorrentados às embarcações. O Faraó Amenophis II foi imortalizado na sua tomba remando. Há também excertos de uma regata em Veneza no ano de 1315.
A prática do Remo em Portugal, enquanto desporto organizado, terá começado em 1828 com a fundação do Arrow Club por Abel Power Dagge, os irmãos Pinto Basto e alguns elementos da colónia britânica residente na metrópole, segundo documentos inéditos que nos foram recentemente facultados pela família Dagge.
O Remo adaptado foi introduzido em Portugal na década de 80 com o inicio da utilização do Ergómetro (aparelho que simula a remada em terra), quando a Associação Naval de Lisboa um clube fundado em 1855, o mais antigo da Europa Continental, assinou diversos protocolos com algumas Associações de apoio a cidadãos com deficiência. A partir daí foi-se universalizando a sua prática em Portugal e abrangendo cada vez mais pessoas com problemas de saúde, nos ginásios ou até mesmo como inclusão social nas prisões.  
Para alguém que se sinta descriminado e, ou mesmo, inferior poder desenvolver a prática desportiva e, ao mesmo tempo, fazer parte de uma tripulação/equipa é fundamental. O Remo tem-se mostrado uma excelente ferramenta de inclusão social, ainda por cima se houver contacto com outros atletas sem deficiência e em pleno contacto com a Natureza. O desporto do Remo é um dos poucos desportos onde atletas portadores de deficiência não necessitam de grandes adaptações para remar o que permite que eles pratiquem remo junto com pessoas sem deficiência. O facto de praticarem o desporto no mesmo local, com os mesmos equipamentos que as equipas convencionais, forma o mesmo sentimento para com o clube e espera-se deles o mesmo retorno de paixão e compromisso.
É no Remo que as provas para cidadãos com deficiência se realizam juntamente com o Remo para o cidadão convencional. Este desafio da Federação Internacional é um grande passo que o desporto tem dado com o objectivo da inclusão. Com as provas de remo adaptado exclusivas para pessoas com deficiência, talvez apenas assistissem os próprios atletas e os seus familiares enquanto que nas actuais condições existem condições iguais para cidadãos com e sem deficiência. Na água há maior liberdade do que nas ruas, sem automóveis, buracos, postes, descidas, subidas ou outros obstáculos.
Pode-se remar com ou sem pernas, com tronco e braços ou só com os braços, remar depressa ou devagar pouco ou em grandes distâncias e o facto de se remar sentado torna-o um desporto adaptável. Podem remar pessoas com lesões musculares, paralesia cerebral, amputadas, deficiência visual ou intelectual, com 8 ou 80 anos. É um desporto para todos.
Categorias de Remo adaptado:
São quatro categorias de competição: Skiff Masculino, Skiff Feminino, Double-Skull Misto, Shell de Quatro com timoneiro Misto. Cada uma delas pode ser composta por atletas com diferentes tipos de deficiências que são classificados de acordo com a capacidade funcional empregada:
A – Agrupamento funcional utilizado: braço.
TA – Agrupamento funcional utilizado: tronco e braço.
LTA – Agrupamento funcional utilizado: perna, tronco e braço.

                                                                                                          Carlos Henriques

Este artigo serve também como homenagem ao José Nunes e à Filomena franco.

        

3 comentários:

intimidades disse...

infelizmente o desporto e fundamentalmente movido pelo dinheiro que gera

jinhos
Paula

Laurus nobilis disse...

Grsndes atletas, os paralímpicos nacionais; todos temos uma dívida de gratidão para com eles, pelo que já dignificaram o nosso país!

Muitos dos atletas ditos "normais" deviam pôr os olhos nestes "anónimos" e já agora, se me permitem, especialmente os da indústria do futebol...

João Menéres disse...

Na Vela, sou amigo do Bento Amaral, que até à data do acidente ( Agosto de 94 ) foi proa do meu filho.
Conheço a sua força moral.