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quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

Gago Coutinho e a Associação Naval de Lisboa / Real Associação Naval

 Gago Coutinho Faria anos hoje a minha contribuição para a sua história na Associação Naval de Lisboa:







Carlos Viegas Gago Coutinho, nasceu em Belém, Lisboa, a 17 de Fevereiro de 1869. Filho primogénito de José Viegas Gago Coutinho, marítimo, natural de Faro e de Fortunata Maria Coutinho, natural de Faro, moradores na Calçada da Ajuda nº 5. Foi baptizado na Igreja de Santa Maria de Belém a 2 de Junho de 1869, morreu na Freguesia de Santa Engrácia às 18h05 do dia 18 de Fevereiro de 1959.

Era assim que descrevia a sua família:

«Meu pai era um homem de reduzida educação literária. Só a primária, mas conhecia escrita comercial, em que praticava. Sargento de mar-e-guerra até 1873, serviu na nau Vasco da Gama e na fragata D. Fernando. Era homem alto, desempenado, bem branco. (...) falecendo em Lisboa com 93 anos. Meus avós eram livreiros em Faro. (...) De minha mãe, senhora pequena, algarvia, filha de padeiros, e que devia ter ascendência moura, nada mais sei a não ser que um irmão dela era patrão de um cahique da costa (...). (...) Desde os 8 anos que foi minha mãe adoptiva uma amiga de minha mãe, D. Maria Augusta Pereira, falecida em 1914.»

Em 1885 Gago Coutinho concluiu o curso do Liceu e devido aos fracos recursos materiais de seu pai não conseguiu satisfazer a vontade de frequentar um curso de Engenharia na Alemanha, matriculou-se então na Escola Politécnica para preparar a sua entrada na Escola Naval, um ano depois. Entrou para a Armada como aspirante em 1886. Em 1890 foi promovido a guarda-marinha, em 1891 a segundo-tenente, e em 1895 possuía já a patente de primeiro-tenente. Em 1907 foi promovido ao posto de capitão-tenente e em 1915 a capitão-de-fragata. Em 1920 era já capitão-de-mar-e-guerra. Em 1922 foi promovido ao posto de vice-almirante, e em 1958 um ano antes de falecer, a almirante.

 

O seu primeiro grande embarque foi na corveta “Afonso de Albuquerque”, de 7 de Dezembro de 1888 a 16 de Janeiro de 1891, numa viagem para Moçambique pertencente à Divisão Naval da África Oriental. Seguidamente passou à canhoneira “Zaire”, na qual navegou até 24 de Abril de 1891, viajando de regresso a Lisboa. Colocado na Divisão Naval da África Ocidental, embarcou sucessivamente na lancha-canhoneira “Loge”, que comandou, na canhoneira “Limpopo”, na canhoneira “Zambeze”, e na corveta “Mindelo”. Durante o serviço nesta corveta no Brasil, em 1894, adoeceu com a febre-amarela, foi então internado no Hospital da Beneficência Portuguesa no Rio de Janeiro. Já em Portugal, esteve embarcado na canhoneira “Liberal” e na corveta “Duque da Terceira”. Foi nesta corveta que fez nova viagem ao Atlântico Norte. Viajou depois até Moçambique na embarcação de transporte “Pero de Alenquer” e, a seguir, ingressou na corveta “Rainha de Portugal”, embarcou então na canhoneira “Douro”, que o trouxe para Lisboa. Fez parte da guarnição da corveta couraçada “Vasco da Gama”, até 31 de Março de 1898, da qual passou para a sua primeira comissão como geógrafo ultramarino, em Timor.

De espírito inovador, era sincero e austero, afirmava: «Gosto de controvérsias, de tudo o que possa esclarecer, pois sou comunicativo como todos os homens do mar. Gosto da discussão que faz luz...». Normalmente modesto ao fazer as suas apresentações e conferências nas academias, qualidade que, segundo os que com ele conviviam, vinha cultivando desde sempre: «(durante a travessia), o meu papel foi secundário.» (Gago Coutinho, 30/03/1942). Também muito imaginativo, tinha sempre uma resposta de espírito pronta para dar, ou uma anedota para contar. Em resposta à pergunta: como tinha atravessado África a pé? Resposta pronta de Gago Coutinho: «Como havia de ser? Com as botas rotas, para a água sair mais à vontade, porque, para entrar, entrava sempre.»

Assinalável é também o seu gosto pelo desporto, visto não ser muito comum na época em que viveu. Desde adolescente que o praticava, remo, vela e especialmente ginástica com aparelhos. Já com alguma idade, ainda trabalhava com as argolas montadas numa trave do tecto na Rua da Madragoa, para se manter em forma. A prática desportiva interessava-o, e dedicou-lhe algumas das suas palavras, das quais temos o exemplo aquando da conferência do 71º. aniversário do Real Ginásio Clube Português (1946). Foi  Secretário Geral da Real Associação Naval/Associação Naval de Lisboa e rezam as crónicas que foi ele quem deu, em Portugal, o primeiro curso de Patrão da Náutica de Recreio, em 1900, na Real Associação Naval. Já no inicio do século XX organizava com frequência conferências no seu clube náutico.

Das suas diversas viagens destacamos:

1893 – No Mindelo (Luanda - Rio de Janeiro), cujo comandante era o grande almirante Augusto de Castilho

1896 - No Pero de Alenquer (Lisboa – Lourenço Marques), seguindo na medida do possível a histórica rota de Vasco da Gama, na sua viagem rumo à Índia, travessia que tão grandes ensinamentos lhe veio a fornecer para os seus estudos sobre "Náutica dos Descobrimentos".

Já com 75 anos fez, a bordo da barca portuguesa Foz do Douro, uma nova travessia à vela, Santos – Leixões, durante a qual navegou 105 dias, utilizando o histórico astrolábio, como os antigos mareantes portugueses, confirmando, assim, as suas opiniões sobre as rotas por estes seguidas.

Calcula-se, por conseguinte, que durante toda a sua vida, o almirante teria navegado 30837 milhas o que, por certo, constitui um recorde para todos os oficiais do seu tempo. A sua missão, a bordo dos barcos em que prestou serviço, foi, quase exclusivamente, de "oficial encarregado da navegação", daqui vindo a resultar o conhecimento que manteve com o sextante clássico.

De 1913 a 1914 Gago Coutinho comandou a  missão de delimitação da fronteira Angola com a Rodésia, surgindo como seu colaborador o segundo-tenente Arthur de Sacadura Cabral a quem o almirante apelidava de «observador de fina vista».

A competência do geógrafo levou à sua nomeação pelo Ministério da Guerra, em 1928, a presidente da Comissão, para propor a reorganização dos serviços geográficos, cadastrais e cartográficos. Neste mesmo ano passou igualmente a vogal da comissão encarregada de estudar o estabelecimento de um aeroporto nos Açores, e a navegação aérea nas colónias

Desempenhou ainda as funções de Presidente da Comissão de Cartografia, contribuíndo eficazmente para a criação da missão geográfica de Moçambique e para a solução definitiva da fronteira luso-belga na região do Dilolo.

Assim, o seu interesse pela aviação não surgiu apenas do espírito Romântico que esta inspirava, mas principalmente do caracter científico do almirante. Gago Coutinho pressentiu na aviação uma hipótese de novas descobertas científicas, onde desejava aplicar os seus inúmeros conhecimentos e pesquisar quer a nível marítimo quer a nível terrestre. O emprego, quase diário, que havia feito, em África, durante as suas missões de geógrafo, do sextante e o grande conhecimento sobre este instrumento, eram mais que suficientes para justificar a sua opinião. Assim, Gago Coutinho foi um dos primeiros oficiais de Marinha a oferecer-se para ir ao estrangeiro obter a sua «Carta de piloto do ar», uma vez que a de «piloto do mar» já tinha há alguns anos. Tirou o Brevet em França em 1915, num frágil Maurice Farman, o "baptismo do ar" do almirante realizou-se em Portugal, mais propriamente na Escola de Aviação Militar em Vila Nova da Rainha, acompanhado pelo já piloto-aviador Sacadura. Nesta escola, foi, mais tarde, instrutor.

A propósito da sua passagem pela escola referida, e já no contexto das experiências aéreas na companhia, de Sacadura Cabral, o almirante comenta:

«Vou ao aeródromo de Vila Nova da Rainha e dou três voos com o Sacadura. Total, 35 minutos no ar. Admirável a segurança; demos vários saltos, curvas, etc. até governei um pouco. Pareceu-me bastante fácil e muito mais seguro do que eu julgava. Em todo o caso, entusiasmei-me.»

Esta foi a primeira de algumas das suas experiências de voo que culminariam com a Travessia Aérea do Atlântico Sul, que consagra o nome de Gago Coutinho como aviador, na História Nacional.

 

 

OBRAS PUBLICADAS:

Algumas determinações de longitude feitas ultimamente em África pela missão da fronteiro do Barotze, 1915

As determinações de latitude pela missão da fronteira Barotze, 1915

Impressões de duas viagens através de África entre Angola e Moçambique, 1915

Relatório da missão geodésica de São Tomé. 1920

Relatório da viagem aérea Lisboa-Rio de Janeiro, 1923 (de colaboração de Sacadura Cabral)

Tentativa de interpretação simples da teoria da relatividade restrita, 1926

O roteiro da viagem de Vasco da Gama e a sua versão nos Lusíadas, 1930

Desdobramento da derrota de Vasco da Gama nos Lusíadas, 1931

Possibilidade da rota única de Vasco da Gama em Os Lusíadas. Impossibilidade de Vasco da Gama ter de Cabo Verde navegado para o Sul, 1931

Pela Segunda vez, possibilidade de ler em Os Lusíadas uma rota única de Vasco da Gama, 1933

Gaspar Côrte-Real, 1933

Alguns erros em que se apoiou o desdobramento da rota de Vasco da Gama em Os Lusíadas, 1933

Continuação dos erros em que se apoiou o desdobramento da rota de Vasco da Gama em Os Lusíadas, 1934

Passagem do Cabo Bojador, 1935

Influência que as primitivas viagens portuguesas à América do Norte tiveram sobre o descobrimento das Terras de Santa Cruz, 1937

O almirante foi também colaborador da Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira

 

Bibliografia

ALBUQUERQUE, Luís de, Curso de História da Náutica, Lisboa, Alfa, 1989.

BOLÉO, José de Oliveira, Gago Coutinho e Sacadura Cabral, Lisboa, Sociedade de Geografia, 1972.

CORRÊA, Pinheiro, Gago Coutinho, Precursor da Navegação Aérea, Porto, Portucalense Editora, 1969.

Correia, José Pedro Pinheiro,

LEMOS; Carlos M. Oliveira e, O Almirante Gago Coutinho, Lisboa, Instituto Hidrográfico, 2000.

REIS, Manuel dos, CORTESÃO, Armando, Gago Coutinho Geógrafo, Coimbra, Junta de Investigações do Ultramar, 1970, sep. de Memórias da Academia das Ciências de Lisboa, Tomo XIII, 1969. 

http://cvc.instituto-camoes.pt/ciencia/index1.html





sexta-feira, 8 de maio de 2020

A Mulher na Associação Naval de Lisboa

Artigo escrito para o Anuário de 2016 que depois não foi impresso:


No século XIX a dança começou por ser a único modo da mulher desenvolver alguma actividade física, sendo considerada um ser frágil devia haver uma supremacia das faculdades afectivas sobre as intelectuais  e uma sujeição da sexualidade a uma vocação maternal, por tudo isto a mulher no desporto está aliada à luta contra a discriminação e na base da conquista social. Nos anos 1800 a participação da mulher nas provas desportivas era vista como um divertimento, enfatizando-se a sua beleza e postura corporal mas não se dava importância à força, agilidade e destreza das atletas.
As mulheres já participavam nos Jogos Ingleses a partir de 1770 mas só nos Jogos Olímpicos de 2012 é que existiam praticantes femininos em todas as modalidades olímpicas! Para o Barão Pierre de Coubertin “Uma Olimpíada com mulheres seria impraticável, desinteressante, inestética e imprópria” e continua  “O único herói Olímpico real é o homem adulto individual. Por isso, nada de mulheres ou desportos de equipa” ou ainda “pessoalmente, não aprovo  a participação de mulheres em competições públicas, o que não significa que se devam abster de praticar um grande número de desportos, com a condição de não ser um espectáculo. O seu papel nos jogos olímpicos deveria ser, essencialmente, como nos antigos torneios, coroar os vencedores” . 
Em Portugal e em particular na Associação Naval de Lisboa a participação da mulher no Remo e na Vela é muito tardia. Nas primeiras regatas do Clube a mulher apenas oferecia os prémios para as provas, nomeadamente bordando as Bandeiras de Honra, a mais antiga das quais, para as Guigas, ainda existe e está em exposição na Sede do Clube. Sua Majestade a Rainha D. Maria Pia protectora do clube ofereceu, por diversas vezes Bandeiras de Honra, como prémio para as Regatas da Real Associação Naval. 
No norte do País temos conhecimento de regatas de Remo feminino mais cedo do que no sul, no Jornal do Porto de 29 de Agosto de 1863 lemos sobre uma regata “de barcos remados por mulheres de Avintes” que se realizou na Foz. Estas mulheres eram barqueiras (maganas) que faziam o transporte entre as duas margens do rio nesta localidade. Em Lisboa ou Cascais a primeira manifestação de Remo feminino que encontrámos foi no final do século XIX nas Regatas de Paço de Arcos, mais concretamente a 27 de Setembro de 1896 com “corridas de escaleres tripulados por senhoras”.
Contudo a Vela, em Lisboa, teve um renascer ligeiramente mais cedo com o primeiro Iate timonado por uma senhora a fazer  parte da regata organizada pelos nossos rivais –Real Clube Naval de Lisboa – em 1894, a autora dessa proeza foi a britânica Eleanor Bucknall, esposa do Comodoro daquele clube, mãe do Campeão Olímpico de Remo e vencedor da Boat Race Henry Bucknall,  que timonou a sua Canoa “Mavis” nas Regatas de Paço de Arcos. Apesar do facto, temos contudo conhecimento que a Rainha D. Amélia protectora da Real Associação Naval ia muitas vezes ao leme do seu Iate Lia em passeio.
No livro “150 anos de História” a primeira vez que temos qualquer informação sobre  Remo feminino é em 1983 e sobre os femininos na Vela apenas em 1984 somos informados que neste ano é construído um balneário exclusivamente para senhoras!
Pela minha ligação ao Remo e à ANL tenho conhecimento que nos anos oitenta do século passado várias mulheres representaram o clube e venceram diversos títulos nacionais. Nessa década a ANL sagrou-se campeã nacional  de Double-Skull feminino em1985, 1986 e 1987 tendo em 1985 repartido o título de campeão nacional de Shell de 4 com timoneiro feminino com o Clube Ferroviário de Portugal que segundo o relatório da FPR terminaram ex-áqueo nesse ano. Algumas das responsáveis destas  proezas que me recordo, com a preciosa ajuda do Luís Reis, foram a Ana Romão, Catarina Santos, Maria José Fonseca, Carla Querido, Ana Viegas, Leonor Rodrigues e a Alice.
Em 1988 nos relatórios da FPR entre muitos títulos masculinos temos a informação da vitória no Skiff Juvenil Feminino nos campeonatos nacionais.
Pretendia destacar a remadora Cristina Roque Lino que para mim foi a melhor atleta que representou a ANL em Remo. Queria sublinhar entre as várias vitórias desta atleta a medalha de Prata que venceu nas Regatas Internacionais de Macon de 1990 prova durante a qual tive o privilégio de a acompanhar como treinador. Participou ainda no ano seguinte no Campeonato do Mundo Júnior em Banyoles, Espanha. Com uma grande formação pessoal e desportiva não desmereceu quando, ainda muito jovem, foi desclassificada num Campeonato Nacional depois de vencer destacada a prova, devido a duas colegas numa embarcação terem gritado palavras de incentivo… eram as regras da altura, muito injustas. Apesar disso não desistiu e destacou-se representando sempre muito bem o clube e a selecção nacional.
Em 1992 na secção de Remo dos 75 atletas que representaram o Clube nos vários escalões apenas três eram femininos ( uma sénior, uma júnior e uma infantil). Ainda como treinador da Associação Naval de Lisboa quero realçar no I Campeonato Nacional de Ergómetro, em 1993,  a participação das atletas presentes na prova e que se destacaram, nomeadamente a Filipa Cabaça e a Elsa Rodrigues. Ainda nesse ano a Filipa subiu ao pódio no Campeonato Nacional de Fundo em Crestuma. No ano de 1995 mais duas pupilas minhas, a Inês e a Ana Margarida, representaram condignamente o clube e subiram ao pódio no Campeonato Nacional de Velocidade Shell.
Queria também lembrar a remadora Raquel Franca que além de atleta da ANL foi a primeira mulher a exercer como árbitro de Remo, actuando como Juíza em várias regatas do nosso Calendário de Provas.  
Nos anos 80 e 90 do século passado na Secção de Canoagem também praticaram desporto no Clube diversas atletas femininas que não tenho contudo resultados para apresentar, queria no entanto destacar um projecto meritório que poucos conhecem que foi assinado entre a ANL, a Secretaria de Estado do Ambiente e da Juventude  e a Universidade Lusíada coordenado pelo sócio José Félix da qual a nossa sócia, na altura, Ana Nunes fazia parte. O projecto propunha-se efectuar descidas de rio em canoas cedidas pela ANL , nas quais os estudantes dos cursos de Direito, Gestão,  e História daquela Universidade recolheram elementos sobre a situação dos rios portugueses e do meio ambiente circundante. O projecto foi amplamente difundido na imprensa nacional.
No início do século XXI o meu realce vai para a sócia Susana Lusquinhos que serviu o Clube de várias formas ora como funcionária da secretaria ora como atleta de competição, com vários títulos nacionais conquistados e ultimamente colabora com o clube como excelente treinadora onde inicia todos os dias diversos sócios na prática do Remo, graças à sua brilhante formação técnica e humana tornou-se num ícone incontornável da Associação Naval de Lisboa. No Remo de Lazer muitas são as atletas que várias vezes por semana mantêm a sua perfeita linha remando na nossa frota de Yolles, pois não é só em competição que se pratica este belo desporto. Ultimamente com a ajuda do Treinador José Leitão fizemos um apanhado dos mais recentes resultados do Remo Feminino no nosso clube e podemos afirmar que continuamos com uma boa prestação desportiva através das prestações das atletas Madalena Ferreira, Marta Sampaio, Catarina Vieira, Ana Santos e Maria Felício. Na Taça de Portugal de 2014 Madalena Ferreira e Ana Santos conquistaram o segundo lugar em double-skull e nos Campeonatos Nacionais Catarina Vieira, Marta Monteiro, Ana Santos e Madalena Ferreira conquistaram o terceiro lugar no Quadri-skull.
Em 2015 foram Campeãs Nacionais de Yolle 4 as atletas Ana Santos / Madalena Ferreira / Rita Pape / Catarina Vieira e no Campeonato Nacional de Fundo em Quadri.skull  estas atletas conseguiram o pódio. Nos Campeonatos Nacionais a Madalena Ferreira csubiu também ao pódio na prova de Skiff.
Neste ano de 2016 temos já conquistado o título de Campeãs Nacionais de Yolle 4 com as atletas Ana Santos / Catarina Vieira / Marta Sampaio / Maria Felício.
Divagando agora pela secção de Vela gostaria de começar por destacar em 1993 a dupla Teresa e Rita Borges Coutinho que foram Campeãs Nacionais de “420” e representaram Portugal no Mundial da Classe em Itália. Durante a época de 1995 a velejadora Margarida Aguiar sagrou-se Campeã Nacional da Classe “Europe”.  Em 1997 e 1998 Inês Nolasco e Mafalda Barros sagraram-se bicampeãs nacionais da classe 420 Júnior. No ano seguinte Rita Gonçalves e Rita Guerra venceram o mesmo Campeonato Júnior de 420.
No ano do Milénio Marta Lobato venceu o Campeonato Nacional da Classe “Europe e em 2004 a ANL sagrou-se Campeã Nacional de Match Racing Feminino com a equipa composta por Margarida Aguiar, Sara Telhada, Mafalda Barros, Inês Gamito e Diana Neves.
Em 2005 a dupla campeã nacional júnior da classe “420” Rita Rocha e Mariana Lobato representaram Portugal no Mundial da Juventude ISAF que se disputou na Coreia.
Em 2007 a equipa de Match Racing liderada pela atleta Rita Gonçalves e composta por Ana Champalimaud, Mariana Lobato, Ingrid Fortunato e Catarina Costa sagrou-se Campeã Nacional. Ainda a equipa feminina de Match Racing agora patrocinada pela Schroders e com uma equipa base composta por Leme Rita Gonçalves, Trimmer Mariana Lobato, Trimmer Ana Champalimaud, Trimmer Ingrid Fortunato, Trimmer Catarina Costa e Proa Diana Neves, participou no Campeonato Europeu de Match Racing Feminino realizado em St. Quay, França, nos dias 9 a 13 de Setembro de 2008. A participação portuguesa nesta prova coube então à equipa liderada por Rita Gonçalves, velejadora da Associação Naval de Lisboa, e foi constituída por Marta Lobato, Ingrid Fortunato e Mariana Lobato. Esta equipa que teve uma excelente performance em 2007, campeã nacional, em 2008 sagrando-se bi-campeã nacional feminina e alcançando ainda  o 3º lugar do ranking nacional absoluto. Neste mesmo ano participou ainda no ISAF Nations Cup. Em 2009 foi o tricampeonato nacional, as velejadoras que participaram nesse ano foram a Rita Gonçalves ao Leme,  Ingrid Fortunato no Trimmer genoa, Catarina Costa no Trimmer spi e Diana Neves a proa, estiveram também presentes no Campeonato Europeu e na Grand Final da ISAF Nations Cup. Em 2010 para além do Tetra-campeonato de Portugal de Match Racing participaram no Mundial com uma equipa formada pelas velejadoras Rita Goncalves ao Leme, Mariana Lobato em Trimmer Vela Grande/Spi, Ingrid Fortunato no Trimmer estai e Diana Neves a proa, participaram além disso no Campeonato Ibero-americano onde alcançaram um honroso terceiro lugar conquistaram ainda o quinto lugar no Europeu da Classe.
De salientar que a base desta equipa esteve presente nos Jogos Olímpicos de Londres porém nesta altura já não representavam a Associação Naval de Lisboa!!!
Para honrar o desporto feminino e Sua Majestade a Associação Naval de Lisboa instituiu em 2004 o Troféu Rainha D. Amélia, perpétuo com uma prova  aberta a barcos de Cruzeiro que durante a regata sejam governados por Timoneiras. A prova tornou-se já um destaque no Calendário da Vela e S.A.R. a Senhora D. Isabel de Bragança sensibilizou-se com o projecto e na segunda edição da prova distribuiu os prémios às vencedoras.   

























segunda-feira, 16 de setembro de 2019

As Sedes da Associação Naval de Lisboa

Sedes da Associação Naval de Lisboa:


A primeira “Carreira de Barcos”, era assim que se denominava a regata de remo e vela, foi organizada por Abel Power Dagge, Edward Shirley, Alex Hudson e G. A. Hangcock em1850. Na reunião de preparação da regata esteve presente o comandante da escuna britânica Vixen onde o júri da prova estaria instalado. A 19 de Agosto de 1852 realizou-se outra regata em Belém que teve a honra de ser divulgada no Jornal inglês The Illustrated London News do dia 11 de Setembro. São célebres, pelo menos a partir de 1853, as Regatas de Paço de Arcos, em barcos à vela e a remos, promovidas pelo Conde das Alcáçovas, Abel Power Dagge, Hermann Moser e por um grupo de aristocratas, por ocasião dos festejos anuais. No programa da Regata do Tejo de 11 de Setembro de 1854 constava a participação de duas guigas de 4 remos, tripuladas por “curiosos”. Nesta regata a prova de Vela foi ganha por Frederico Burnay vencendo uma Taça de Prata (O primeiro troféu conhecido de uma regata em Portugal). Na Regata organizada em 24 de Julho de 1855 havia provas de Remo e Vela. Esta regata veio dar lugar à Comissão Promotora da Real Associação Naval.
Na sequência destes eventos foi fundada em1855 a Real Associação Naval (actual Associação Naval de Lisboa), a mais antiga agremiação desportiva da Península Ibérica e uma das mais antigas do mundo. Sob a protecção de D. Pedro V a Real Associação Naval foi fundada numa reunião presidida pelo Infante D. Luís no Hotel Bragança e a primeira Assembleia-Geral realizou-se a 6 de Abril de 1856 no Arsenal de Marinha presidida por S. Alteza o Infante D. Luiz, Duque do Porto que presidiu a todas as sessões de Assembleia Geral até à sua ascensão ao trono por morte de seu irmão, passando nessa data a Comodoro, cargo que exerceu até ao seu falecimento, substituindo-o depois El Rei D. Carlos.
Neste largo período de vida a ANL tem trabalhado a favor do desporto náutico sendo inúmeras as Regatas e diversões náuticas promovidas.
Após a fundação do seu rival de Lisboa manteve-se um pouco afastada da prática desportiva continuando, no entanto, sempre a organizar grandes certames náuticos tais como o Centenário da Índia com as disputas da Taça Vasco da Gama em Vela e a célebre corrida de Guigas de 6 remos em 1898.
Em 1902 devido à “ (…) enérgica iniciativa do secretário do conselho executivo, o Sr. Virgílio Costa, é reorganizada a secção de remos, reaparecendo sobre as águas do Tejo as suas guigas que por muitos anos se conservaram guardadas (…) ” in Ilustração Portugueza 29 maio 1905.
Foi por altura de 1863 que se começou a falar sobre a necessidade de construção de uma Sede em Lisboa ou Paço de Arcos (“apenas quando houvesse um fundo de caixa de pelo menos 10 contos de reis”), até aí as reuniões e AG iam tendo lugar no Arsenal de Marinha ou em casa dos seus mais ilustres sócios.
Em 1878 por altura da proeza do Conde de Silvã, seu sócio, que fez a viagem entre os Açores e Lisboa a sua sede era na Rocha Conde D´Óbidos tendo já estado num andar arrendado na Rua de Santa Catarina passando então depois para o actual edifício da Cruz Vermelha.
Seguidamente para obter mais espaço, devido à crescente prática da Ginástica na Associação, os directores mudaram a sua sede para um r/c e primeiro andar do nº 45 da Rua do Alecrim. A mudança custou 2000$000 réis e como não havia dinheiro emitiram-se Acções e Obrigações para custear a mudança.
Por falta de mais dados sabemos que em 1899 a sede da Associação era no topo oeste da Doca de Alcântara, edifício esse que ardeu e com ele muita da história do nosso clube.
Em 1902 a Associação não possuía nem sede nem Posto Náutico, por esse facto a prática do Remo e Vela era nula, devemos então a Virgílio Costa a reorganização do clube com a instalação da Sede e Posto Náutico, em Pedrouços, nos anos seguintes (Na altura a Liga Naval propôs a fusão entre o CNL e ANL havendo inclusive várias reuniões).
No ano de 1905 a Associação muda-se novamente para a Doca de Alcântara até que, em 1910, foi alugada a S/L da Rua Ivens nº 72 pertencente ao Clube Tauromáquico e a Liga Naval também nos cedeu algumas salas nas suas instalações, que “luxo havia duas sedes”.
Por altura de 1914 “ (…) continuou a luta do Conselho Executivo pela sede, e levou a sua perseverança a fazer um requerimento para obter terreno no Cais do Sodré, e abriu uma subscrição (…) ” mas até tínhamos uma sede na Rua Nova do Almada 81 mas porque era considerada pequena fizemos então a mudança para o Palácio Palmela, no Calhariz. Neste mesmo ano o nosso Posto Náutico estava instalado na Sede do Clube Naval de Lisboa, no Cais da Viscondessa, por manifesta bondade do Clube.
Em 1915 alugou-se um armazém na Cruz Quebrada para albergar as escolas da Associação e no ano seguinte já possuíamos um Posto Náutico em Pedrouços junto à Torre de Belém.
No princípio dos anos 20 para a Vela tínhamos a Chalupa Albatroz e o Posto Náutico de Alcântara, o Remo tinha o seu sonhado Posto Náutico no Cais do Gás, sede da ANL. Contudo em 1923 por falta de verbas para manutenção fomos forçados a vender a Albatroz e em 1927 vendemos as instalações do Cais do Sodré ao Porto de Lisboa por 37$500 escudos, restava apenas o Posto Náutico de Alcântara.
Em 1931 construímos o nosso actual Posto de Remo da Doca de Santo Amaro, sede do clube e um Pavilhão de Regatas na praia de Pedrouços.
Nesse mesmo ano nos Postos Náuticos efectivou-se a construção de quatro Stars para os sócios Armando Gama, Francisco Ribeiro Ferreira, Ernesto de Mendonça e Joaquim Fiúza, uns remos com madeira spruce vinda de França e, também, o sócio José Duarte deslocou-se a este País para trazer os planos de construção do YOLLE.
Em 1934 por iniciativa do remador Eliseu de Carvalho, Tesoureiro da ANL, a secção de Vela torna-se autónoma financeira e administrativamente, com a aprovação dos novos Estatutos. Foi nesta data então que o clube praticamente se dividiu em dois.
Em 1935 mais uma calamidade: ardeu o Posto Náutico da Doca de Alcântara.
O ano de 1937 marcou a vida da ANL com o protocolo assinado com a Mocidade Portuguesa para o ensino e prática do Remo e da Vela dos jovens daquela associação estatal.
1938 Foi um ano de melhoramento dos postos náuticos de Pedrouços e Santo Amaro onde estava situada a nossa Sede Social. No entanto em 1939 o de Pedrouços teve que ser parcialmente demolido para dar lugar à construção da Marginal Lisboa-Cascais e em 1940 um Ciclone que assolou a região de Lisboa destruiu as instalações que havia na praia de Pedrouços.
Com a ida da Vela para os edifícios que não foram demolidos da Exposição do Mundo Português a nossa Sede Social passou a ser em Belém até à presente data.
Queremos ainda salientar o abandono de um Posto Náutico que havia na Trafaria em 1951 e em 1955 a construção do 2º andar na Sede em Belém.
 A Secção de Remo foi sofrendo obras de melhoramento ao longo dos anos tais como a renovação do telhado, no princípio dos anos 90, a colocação dos portões actuais e a divisão entre o Hangar e a Zona Social em 1996.
Existe já um projecto para acrescentar mais uma nave ao edifício imprescindível ao desejado crescimento da Secção de Remo.   







  

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

História do Remo em Portugal - 1828 - 2018 - 190 Anos de História

 

 História do Remo em Portugal


190 ANOS DE HISTÓRIA 

Autor: Carlos Manuel Gomes Henriques
A prática do Remo em Portugal, enquanto desporto organizado, terá começado em 1828 com a fundação do Arrow Club por Abel Power Dagge, os irmãos Pinto Basto e alguns elementos da colónia britânica residente na metrópole, segundo documentos inéditos que nos foram recentemente facultados pela família Dagge.
Do referido acervo documental constavam as actas de fundação de várias associações náuticas, a sua correspondência e deliberações das Assembleias Gerais, assim como memórias de Abel Power Dagge, membro fundador da Real Associação Naval e do Clube Naval de Lisboa, quiçá o primeiro desportista náutico a existir em Portugal.
Segundo José Pontes, no seu livro “Quasi um século de desporto”, a primeira regata de desportistas amadores oficialmente realizada em Portugal foi de Remo, corria o ano de 1849, e foi promovida por Abel Power Dagge.
São célebres, pelo menos a partir de 1852, por ocasião dos festejos anuais de Paço de Arcos, as Regatas em barcos à vela e a remos, promovidas pelo Conde das Alcáçovas, por um grupo de aristocratas, alguns deles ligados à Casa Real, e por elementos da colónia inglesa. A regata de 1853, foi presidida pelo infante D. Luiz que se fez conduzir a bordo do vapor da Marinha de Guerra Portuguesa Conde de Tojal. Aproveitando a estadia do barco de guerra inglês Odin, fundeado na Baia de Paço Arcos, realizou-se uma corrida de remos entre marinheiros portugueses e ingleses. Do programa de 1854, constava a participação de duas guigas de 4 remos, tripuladas por “curiosos”.
Na sequência destes eventos, foi fundada em 1855 a Real Associação Naval, a mais antiga agremiação desportiva da Península Ibérica e uma das mais antigas do mundo.
O interesse despertado pelo «divertimento das regatas», associado ao “gosto e predilecção” da Família Real pelos passeios a remos no Tejo, deram lugar em 1861, à formação de dois grupos de remadores. O primeiro grupo era composto na sua maioria por ingleses mesclado dealguns portugueses e, o segundo, era constituído exclusivamente por indivíduos da colónia alemã. Estes dois grupos de amadores remavam também em guigas de 8 remos, construídas propositadamente para esse fim pelos construtores Luís Silvério de Faria e I. C. Dangebau, que se denominavam respectivamente Lusitânia e Germânia. A guiga Lusitânia, construída em 1862, tinha 12,80 m de comprimento e 1,83 m de largura, tendo custado 201,600 reis. Segundo os nossos registos, esta guiga deverá ter sido a primeira embarcação desportiva de remo construída em Portugal e por um mestre português. Destes acalorados desafios resulta
então a fundação, em Lisboa, do Tagus Rowing Club e do Club dos Remeiros Lusitano, dois dos primeiros clubes de remo instituídos em Portugal.
Numa época em que o remo desportivo era a modalidade de eleição praticada pela elite inglesa residente na região norte é fundado, em 20 de Junho de 1866 o Oporto Boat Club, em 1868 o Clube Naval Portuense e em 1876, o Club Fluvial Portuense, fundado num antigo café da Ribeira, o Café de Santo Amaro, resultante do entusiasmo de um grupo de portuenses pelos desportos náuticos. Este último, ainda em actividade trata-se da colectividade desportiva mais antiga do Norte de Portugal. O Oporto Boat Club era apenas constituído por ingleses, possuindo tripulações de muita qualidade e na altura consideradas invencíveis. Segundo as nossas consultas a sua primeira derrota foi em 1907, sobre a qual tratamos mais à frente. Na segunda metade do Séc. XIX, a Figueira da Foz era o local de ferias durante os meses de Agosto a Outubro das elites portuguesas, aparecendo a veranear também alguns espanhóis. Neste contexto formam-se na Figueira a Associação Naval Figueirense, com estatutos de 1866 e o Clube Moderno cujos estatutos datam de 1881. A 14 de Outubro de 1880 funda-se em Setúbal a Associação Fluvial Setubalense, mostrando-nos que o gosto pelos desportos náuticos em Setúbal também é muito antigo. Em 1884, ainda por iniciativa de Abel Power Dagge, foi criado o primeiro Campeonato que se realizou em Portugal. As regatas foram efectuadas no Tejo durante três anos seguidos, em skiff, como competidores estiveram os ingleses Hickei e Mitchel e o futuro Barão de Almeirim, Manuel Braamcamp, que venceu os ingleses e conquistou o Titulo de Campeão do Tejo, ganhando uma medalha de ouro que usava com orgulho na corrente do seu relógio. É durante este ano, 1884, que as regatas passam a ser sempre em linha recta na distância de uma milha aproximadamente. Anteriormente eram normalmente efectuadas entre duas bóias com ida e volta. Em 27 de Janeiro de 1892, são aprovados os estatutos do Club Naval de Lisboa, já em actividade desde Novembro de 1891. Com o aparecimento do Clube Naval de Lisboa os desportos náuticos e o Remo em particular, ganham um notável incremento porque o recém-criado Clube imprime um grande dinamismo na prática desportiva. No dia 1 de Maio de 1893 é fundada na Figueira da Foz, a Associação Naval 1º de Maio, a primeira colectividade de cariz eminentemente popular instituída em Portugal, nascendo segundo Maria Alice Guimarães, como continuidade da Associação Naval Figueirense. Nesse mesmo ano, a Real Associação Naval e o Real Gimnásium Club Português criam as suas secções de Remo. Na cidade de Aveiro, em 1894, o Ginásio Clube Aveirense organiza uma secção de Remo, que mais tarde viria a chamar-se Clube Mário Duarte. Logo a seguir a 1 de Janeiro de 1895 é fundado o Ginásio Clube Figueirense, como Clube Gimnastico Velocipedico Figueirense, porventura a continuação do Clube Ginástico, fundado anteriormente nesta cidade em 1889. Em 1896, D. Carlos e D. Amélia passearam-se num escaler de 8 remos durante a Regata de Cascais organizada pela Real Associação Naval na qual competiram nove provas de Remo e seis de Vela. Aquela regata, destacou-se pela grande adesão do público que acorreu à margem para assistir àquele que foi um dos maiores eventos desportivos realizados em Portugal. Nesse dia a vila recebeu seis mil visitantes. Para comemorar os aniversários do Rei D. Carlos e da Rainha Dª Amélia, o Real Club Naval de Lisboa decide realizar as Regatas de Cascais em 29 de Setembro de 1901, a que se seguiram nos anos seguintes, na mesma data, regatas idênticas que se celebrizaram pelo seu esplendor. Podemos ler no Livro de actas da Comissão de Regatas do Real Club Naval de Lisboa que nesta regata existiram provas disputadas por senhoras da sociedade constituindo, provavelmente, uma das primeiras manifestações de desporto feminino em Portugal. Aproveitando o apoio e beneplácito do seu Comodoro, Sua Majestade El Rei D. Carlos, o Clube Naval de Lisboa cresceu e difundiu os Desportos Náuticos pelo País abrindo secções e Postos Náuticos em Azambuja, Cascais, Trafaria, Luanda, Lourenço Marques, Portimão, Lagos, Pedrouços e Funchal. Estas delegações evoluíram mais tarde para os actuais clubes existentes nestas localidades. No alvorecer do século XX despertava grande interesse as regatas em guigas de quatro e de seis remos. No entanto, a falta de uniformidade nas características das embarcações, a que se juntava uma deficiente regulamentação, suscitavam frequentes conflitos que, em alguns casos, conduziam à quebra de relações entre as principais agremiações náuticas. Em 1898, no Centenário da Índia devido a um empate numa regata de Remo os atletas da Real Associação Naval e do Real Clube Naval envolveram-se numa zaragata que destruiu a Cervejaria Jansen, no Cais do Sodré, com prejuízos no valor de 400.000 réis (O Infante D. Afonso quis inteirar-se pessoalmente do ocorrido) e em 1906 houve mesmo um duelo à espada, em Cascais, entre Alberto Totta do CNL e Carlos Sá Pereira da ANL, devido a uma regata da Taça Lisboa.
A necessidade de regulamentação das regatas de Remo mereceu alguma reflexão no “Congresso Marítimo Nacional”, promovido pela Liga Naval Portuguesa, em 1902, sem que contudo daí resultasse alguma alteração tendo, no entanto, sido aprovada a tese “Impulsionamento do rowing nacional. Sua utilização possível na educação física do povo português”, da autoria de Joaquim Leotte dirigente do Clube Naval de Lisboa e o grande responsável pela instituição da Taça Lisboa a prova mais importante do Remo Português.
É neste contexto que em 1904, a pedido de Joaquim Leotte, a Associação Naval de Lisboa, o Clube Naval de Lisboa, o Clube de Aspirantes de Marinha e o extinto Clube Naval Madeirense instituíram a Taça Lisboa em Remo como Campeonato de Portugal, Taça ainda hoje em competição, constituindo a prova desportiva mais antiga do nosso país. Assim nasceu a Taça Lisboa e a Convenção que se lhe seguiu assinada pelos mesmos clubes, a 20 de Abril de 1904. A primeira regata da taça foi realizada a 29 de Maio, ao longo da muralha da Junqueira, entre as docas de Santo Amaro e do Bom Sucesso. A Convenção, o primeiro regulamento de regatas de Remo, estabelece as bases para a regulamentação “das corridas de embarcações de Remo e tinha como fim último promover “o desenvolvimento do rowing portuguez”, a ela se devendo orápido desenvolvimento que o Remo atingiu nos anos que se lhe seguiram.
Nos Jogos Olímpicos de 1908, Henry Bucknall, o voga da tripulação de Shell 8 de Inglaterra, que venceu a medalha de ouro, foi remador do Clube Naval de Lisboa. Filho do seu Comodoro Bucknall, tendo associado a si e a seu pai uma história de desforra entre o CNL e uns ingleses do Porto, como já tínhamos descrito anteriormente. Em 1907 depois de várias derrotas e humilhações dos remadores portugueses contra as tripulações invencíveis dos ingleses do Porto, o Comodoro Bucknall, agarrou no seu filho e meia dúzia de atletas do CNL e levou-os para estágio para uma propriedade que possuía em Sarilhos. Dos treinos bastante puxados apenas resistiram o seu filho e mais três jovens que desafiaram e venceram os ingleses numa regata em Cascais, era a primeira vez que alguém lhes ganhava. Deverá ter sido, também, o primeiro estágio de “competição” efectuado no nosso Pais. Logo a seguir uma tripulação da Real Associação Naval consegue um feito idêntico e acaba-se o mito dos ingleses do Porto. Em 1908 o Dr. António Rainha oferece ao Ginásio Figueirense a Taça Mondego para ser disputada em inriggers de 4 remos na distância de uma milha, por todas as tripulações nacionais existentes, sempre no rio Mondego. Em 1911 Francisco Bento Pinto oferece à Associação Naval 1º de Maio a Taça Alzira, disputada no mesmo tipo de embarcação mas como Campeonato Regional. Segundo o grande dirigente figueirense Severo Biscaia: “A disputa da Taça Alzira constituía um grande alvoroço e assunto de todas as conversas, atiravam-se pedras de cima da ponte à passagem das embarcações, e ouviam-se muitos insultos mútuos pois os do Ginásio eram finitos que só comiam bifes e bebiam água das pedras e os da Naval uma data de carroceiros que se alimentavam a vinho tinto e sardinha.” A proclamação da República teve repercussões nos Desportos Náuticos, sobretudo na Vela com o desaparecimento dos Yachts Reais. Consequentemente, os clubes apadrinhados pela Família Real sofreram um duro revés, foi necessário mudar de nome e de pavilhão. Porém, lentamente, conseguem reagir reformando os respectivos estatutos, ao mesmo tempo diversificam a sua acção, tornando-se mais eclécticos, criando secções com diferentes modalidades desportivas, a par de uma intensa actividade cultural e social, patente na organização de festivais náuticos e na promoção de passeios à vela e a remos que movimentam grande número de sócios, respectivas famílias e despertam o interesse da sociedade da época. Paralelamente, promovem a construção em Portugal dos primeiros barcos a remos de corrida, nos estaleiros privativos da Associação e do Clube Naval. Decorria o ano de 1910 quando se funda em Viana do Castelo o Viana Taurino Club o primeiro desta cidade e que iria começar e dinamizar o desporto do Remo no rio Lima, contudo já em 1906 no Jornal Aurora do Lima podemos ler que: “nas festas da Senhora da Agonia realizou-se uma regata de três escaleres a 4 remos”.
Ainda neste ano Armando Soares Franco, Presidente da ANL oferece uma Taça com o seu nome para ser disputada pelas Escolas Superiores de Lisboa e Mauperrin Santos, sócio do Clube Naval, Director da Escola Académica e Presidente da Sociedade Promotora de Educação Física Nacional (futuro COP) oferece também uma Taça com o seu nome que seria disputada pelas Escolas Secundarias e Liceus da Capital, começando então uma nova era no desporto escolar. As regatas eram organizadas pelo CNL e pela ANL com o patrocínio da CML. Alguns anos mais tarde a Federação Portuguesa do Remo continuaria a utilizar essas Taças com o mesmo propósito, nascendo as regatas escolares que se iriam disputar até aos anos sessenta em Lisboa, no Porto e na Figueira.
Nas regatas efectuadas nesse ano, a 3 de Outubro pelo Viana Taurino, em Viana do Castelo, para competição da Taça com o nome do clube, origina-se uma grande celeuma porque um dos competidores, o Clube Fluvial Portuense, coloca slides no escaler Porto que vence a regata mas depois é desclassificado, pelos árbitros. Este episódio fez correr muita tinta nos jornais da época. Na regata participaram clubes de Viana, Esposende, Vila do Conde e Porto. Ainda na mesma regata comentou-se o equipamento dos atletas, se devia ser calça ou calções e lê-se também no Jornal Sport de Lisboa “ (…) A garrafa de excitante despejada à partida pela tripulação do Viana Taurino Clube, a que se refere o Sr. Silveira, não passa de uma simples e inofensiva garrafa de água do Vidago (…).
O ano de 1919 é marcado pela realização, na Figueira da Foz, do Campeonato Internacional de Remo para comemorar a vitória das forças aliadas da Primeira Grande Guerra, onde seria disputada a Taça da Vitória que a par da Taça Lisboa seria a prova mais importante do remo português. Podiam concorrer a este campeonato todas as colectividades desportivas nacionais e estrangeiras legalmente constituídas.
A Taça da Vitória foi instituída pela Associação Naval 1º de Maio e adquirida por subscrição entre as Nações Aliadas da Grande Guerra e destinava-se a ser disputada em outriggers de oito remos. As Nações que subscreveram a Taça foram Portugal, Brasil, América do Norte, Inglaterra, França, Itália, Bélgica, Servia, China, Japão, Grécia, Sião, Roménia, Honduras, Libéria, Panamá, Nicarágua e Peru. Também em 1919 formou-se a primeira Selecção Nacional de remo para os Jogos Interaliados em Paris.
Dado que não se realizaram os Jogos Olímpicos, as Nações Aliadas organizaram estas provas, em vários desportos, para moralizar os soldados e aproximar os países amigos.
Um misto da ANL e do CNL, representou Portugal e remou em Shell 8 e Shell 4.
No dia 19 de Fevereiro de 1920 na Sala da Associação Naval de Lisboa reúne-se a Comissão Organizadora e Iniciadora da Federação Nacional de Remo, com a participação dos clubes de Lisboa e da Figueira (do Porto não houve resposta à solicitação mesmo depois de serem enviados dois ofícios), marcando então uma reunião de delegados oficiais para o dia 10 de Março, sendo contudo no Congresso Náutico Nacional realizado no Porto, em Abril de 1920, por iniciativa do Clube Fluvial Portuense com o apoio do Sport Clube do Porto, que a Associação Naval de Lisboa e o Clube Naval de Lisboa apresentaram as bases, da Federação Nacional de Remo passando, a partir dessa data, a existir uma entidade reguladora do desporto do Remo em Portugal. Nesse mesmo congresso são também instituídos e regulamentados os Campeonatos Nacionais de Remo
Aos 29 dias do mês de Agosto de 1921 reuniram-se na Sala da Associação Naval, os clubes: Associação Naval de Lisboa, Clube Naval de Lisboa, Associação Naval 1º Maio, Ginásio Clube Figueirense, Clube Naval Setubalense e Sport Algés e Dafundo tendo procedido à eleição da primeira Comissão Dirigente da Federação Portuguesa do Remo que ficou assim constituída:
Presidente – Dr. Carneiro Prego
Secretario – Nuno Vasconcelos
Tesoureiro – José Reis
Vogais – Augusto Salgado e Carlos Botelho Moniz
Em 1922 a Federação Portuguesa do Remo inscreve-se na FISA, o que lhe permite fazer-se representar nos campeonatos da Europa em Como, Itália, em 1923, com uma tripulação de Shell de dois com timoneiro do Sport Clube do Porto e, em 1926, em Lucerna, Suíça, com uma tripulação do Clube Naval de Lisboa que participa nas provas de quatro com e sem timoneiro.
Os Campeonatos Nacionais de Remo de 1931, organizados pelo Clube Fluvial Portuense e pelo Sport Clube do Porto, realizados no Porto, entre o Bicalho e a Alfândega, destacaram-se pela forte adesão do público que acorreu a ambas as margens para assistir àquele que foi o maior evento desportivo realizado em Portugal até aquela data, tendo-se computado uma assistência superior a 50 mil pessoas.
Nesse mesmo ano, as Regatas Internacionais da Figueira da Foz com provas Natação, Remo e Vela tiveram igualmente grande adesão por parte do público, contabilizando-se cerca de 25 mil assistentes.
A realização, a partir da década de trinta, dos Campeonatos Escolares de Remo, organizados pela Federação Portuguesa de Remo e a criação a nível estatal dos Centros de Remo da Mocidade Portuguesa, movimentaram um maior número de praticantes, facto que se reflecte no fomento da modalidade.
Nos anos quarenta organizaram-se várias e diferentes provas destacando em 1944 o I Campeonato de Remo para empregados das Companhias de Seguros, Torneios da Mocidade, o Campeonato Peninsular em 42,43 e 45, e um Campeonato Nacional Universitário em 1945. Em 1947 a FPR organizou a 1ª Conferência Nacional de Remo, publicando também um anuário. No ano de 1948 Portugal inicia a sua participação nos Jogos Olímpicos, aproveitando as excelentes performances das célebres tripulações do S. C. Caminhense e do Galitos de Aveiro. Em 1952,1960,1972,1992,1996 e recentemente em 2008 volta a marcar presença nestes eventos. É na década de quarenta que também se conjectura sobre a construção de uma pista de Remo na Cruz Quebrada, em Lisboa, na Barragem do Ermal, em Braga ou na Pateira de Fermentelos, em Aveiro, desenrolando-se uma acesa discussão sobre o melhor local.
Os anos sessenta destacaram-se pelo início da competição dos Jogos Luso Brasileiros e em 1966 foram criados os escalões etários para os mais jovens, como categoria de remadores.
A partir de 25 de Abril de 1974, dá-se início a uma nova etapa no desenvolvimento do Remo desportivo, pautada pelos princípios de democratização do desporto, definidos na política estatal da época, tendo em vista a massificação da modalidade. No âmbito desta política, a Direcção Geral dos Desportos, implementa Planos de Desenvolvimento da Modalidade. Em 1976, inicia-se o processo de formação de treinadores, sistematizados em vários graus. É estabelecido um intercâmbio com a Polónia com a vinda da equipa olímpica polaca durante todo o mês de Fevereiro, tendo, no âmbito do mesmo, sido dada formação a um elevado número de técnicos nacionais. Paralelamente, assiste-se à criação de Escolas de Remo da DGD por todo o país.
Nos anos 80, a ANL introduziu a variante de Remo Indoor em Portugal organizando, em 1992, o primeiro Campeonato Nacional de Remo Indoor que conta com um elevado número de participantes.
Em 1985, realiza-se o primeiro Congresso de Remo, na Figueira da Foz onde, pela primeira vez, se reúnem todos os agentes desportivos que participam na vida da modalidade, tendo-se debatido amplamente os problemas do Remo. No ano seguinte o Remo passa a integrar as modalidades com planos de Alta Competição que a Direcção Geral dos Desportos apoia.
Após esporádicas presenças em 1962 e 1982, Portugal inicia, em 1986, a sua participação regular e sistemática em campeonatos do mundo de remo com uma presença em Inglaterra. Dois anos depois, Henrique Baixinho, skiffista peso ligeiro, classifica-se em 4º lugar no Campeonato do Mundo de Milão.
Em 1985 disputa-se em Óbidos um Oxford – Cambridge em Shell de oito, numa pista já balizada, embora de forma rudimentar. Também neste ano são iniciados cursos de remo para cidadãos com deficiência.
Em 1989 são redigidos os novos estatutos e os treinadores criam a sua própria estrutura – o Conselho de Treinadores. A década de 90 é marcada pelo aumento de participações em competições no estrangeiro e pela obtenção dos resultados mais significativos na História do Remo nacional, destacando-se: A conquista, em 1990, da primeira medalha na Taça das Nações com uma tripulação feminina em double-skull. No ano seguinte, novamente uma tripulação feminina conquista mais uma medalha na Taça das Nações, uma medalha nas regatas internacionais de Lucerna e atinge a final A no Campeonato do Mundo; Em 1994, a conquista da primeira medalha num campeonato do mundo com uma tripulação de quadri - skull peso ligeiro. Em 1999, uma tripulação de double-skull masculino, Artur Antunes e Bruno Mascarenhas, conquista o seu primeiro título Mundial, no Campeonato do Mundo de Juniores em Plovdiv, Bulgária. A publicação de legislação sobre o regime jurídico das federações, em 1993, implica que estas alterem os seus estatutos para poderem ser consideradas de utilidade pública desportiva. Em Lisboa realiza-se a Conferência Anual FISA de Treinadores com a presença de técnicos de todo o mundo. Em 1997 tem início o plano de apetrechamento dos clubes, apoiado pela Federação, que viria a contemplar mais de 100 embarcações, dezenas de ergómetros e centenas de remos. Três anos mais tarde, cinco árbitros portugueses obtêm a licença internacional e, quatro deles, passam a partir desta data a marcar presença nas grandes regatas internacionais, incluindo campeonatos do mundo. José Nunes é eleito Presidente da Comissão do Remo Adaptado, sendo o primeiro português a ter assento nas estruturas executivas da Federação Internacional, devendo-se ao seu excelente desempenho nesse cargo, a participação do Remo Adaptado, pela 1ª vez nos jogos olímpicos em Pequim. Em 2002, depois de um processo iniciado em 1997, é inaugurada a pista de Montemor – O – Velho, obedecendo o seu projecto às especificações da FISA para pistas internacionais. Em 2003, e depois de uma primeira participação no ano anterior, uma tripulação de Remo Adaptado de Soure conquista a primeira medalha num campeonato do mundo. A prática desportiva do Remo tem-se diversificado nos últimos tempos e encontramos hoje também nos planos de actividade federativos além da competição o Remo Indoor, o Remo de Mar, o Remo Adaptado e o Remo de Turismo. A conquista do primeiro título mundial da sua história, em 1999, a organização do Congresso Extraordinário da FISA na cidade do Porto em 2001, com a presença de 200 delegados de 60 países, e a realização em Montemor – O – Velho, em Agosto de 2002, da Coupe de la Jeunesse, competição onde estiveram presentes 400 participantes de 10 países europeus, deram à Federação e ao País, uma visibilidade exterior impensável poucos anos atrás, o que originou através de um grande empenho da Federação Portuguesa do Remo e do Governo, a conquista da organização do Campeonato da Europa de 2010 ao fim de 86 anos, o que motivou, até um castigo a Portugal pela FISA, devido ao facto de em 1924 e 1954 os Governos de então não terem apoiado a organização do evento já destinada a Portugal. Em 2004 Carlos Henriques e André Correia presidentes do CNL e ANL organizaram a regata comemorativa do Centenário da Taça Lisboa no mesmo local da 1ª prova e um Jantar no Museu de Marinha. Nessa regata o Náutico de Viana vence o Troféu Centenário, um Jarrão oferecido propositadamente pela Vista Alegre. A prova foi um sucesso de participação a nível de clubes e um record de espectadores nas provas organizadas em Lisboa. Esta Regata serviu de ensaio para a Regata comemorativa dos 150 Anos da ANL.
Encerrando as comemorações dos 150 anos da ANL, a Lisboa Classic Regatta teve nesse ano como ponto alto uma inédita disputa entre as Universidades de Oxford e Cambridge.
Em 2005, a mítica Universidade de Cambridge esteve pela primeira vez em Lisboa, e foi derrotada pela Selecção de Lisboa, numa regata inédita em Yolle de 8. Este desaire não deixou de causar alguma surpresa, já que a equipa inglesa disputa anualmente com Oxford uma das mais conceituadas regatas a nível mundial.
Voltaram-se a efectuar estas provas em 2007 e 2008 sempre com um grande êxito e com a chancela do Comodoro da ANL André Correia.
Depois de algumas provas de selecção atribuladas, querelas dos treinadores da selecção com o treinador do Sport Clube do Porto e com o treinador particular dos atletas Pedro Fraga e Nuno Mendes, a tripulação de Double-Skull Peso Ligeiro conseguiu o apuramento para os Jogos Olímpicos de Pequim e teve uma excelente prestação conseguindo chegar às Meias-Finais ficando em 8º na Geral, melhor só a equipa do Galitos de Aveiro uns anos antes.
Nos Jogos Paralímpicos tivemos a participação de Filomena Franco.
A Federação Portuguesa do Remo participou activamente na fundação do Comité Paralímpico de Portugal e Carlos Henriques é eleito para a sua Comissão Executiva em representação do Remo português. O Remo Adaptado está em franco desenvolvimento em Portugal, com aumento do número de atletas e participação internacional nos Jogos Paralímpicos e Global Games, contando já com medalhas nos campeonatos do Mundo da Modalidade.
Em Avis, local privilegiado, para o treino do Remo dos clubes do Distrito de Lisboa e Setúbal, um antigo atleta internacional, Luís Teixeira desenvolveu um projecto meritório – Avizaqua – onde existe um centro de estágio, com um Hotel, Restaurante, Ginásio e Piscina, entre outras comodidades num ambiente de treino fantástico, que segundo ele: “o edifício é inspirado numa folha e na sua queda no solo transformando-se num elemento orgânico que acompanha as curvas de nível do terreno sem danificar a estrutura arbórea existente.”
Numa Pista de Remo totalmente renovada, Montemor foi palco em 2010 do Campeonato da Europa de Remo, organizado pela FPR, avançando também a construção dos Centros de Alto de Rendimento de Montemor e do Pocinho, locais que irão permitir um aumento da qualidade de treino aos atletas da Selecção Nacional. Nesta Regata Pedro Fraga e Nuno Mendes sagraram-se Vice Campeões da Europa em double-skull Peso Ligeiro.
A paralímpica portuguesa Filomena Franco conquistou a medalha de bronze na prova de Skiff (AS) dos Campeonatos do Mundo de remo, que decorreram no lago Karapiro, na Nova Zelândia."A prova correu muito bem, apesar do vento, que obrigou a um controlo muito grande do barco", disse Filomena Franco, uma atleta paraplégica, em declarações à Agência Lusa.
Filomena Franco, que terminou a prova de 1000 metros em 07.37,36 minutos atrás da brasileira Cláudia Santos (06.47,60) e da francesa Nathalie Benoit (06.43,18), lembrou que o seu grau de lesão "é bastante maior do que os das duas primeiras classificadas". 
Depois de ter estado em Pequim2008 por convite, no ano que marcou a estreia do remo nos Jogos Paralímpicos, Filomena Franco garantia que agora sonha com uma presença em Londres 2012. "Estou no caminho certo, corri com as melhores do Mundo. Quero chegar mais longe, sei que tenho muito que trabalhar, mas quero estar em Londres", referiu. Nos Jogos de Pequim 2008, Filomena Franco ficou em 11.º lugar na final B, tendo então admitido que o seu objectivo "era chegar ao fim".
Nos Jogos Olímpicos de 2012 em Londres a dupla de Peso Ligeiro Pedro Fraga – Nuno Mendes conseguiram uma prestação espetacular, apurando-se para a Final A onde conseguiram um extraordinário 5º lugar. Ainda neste ano, em Varese – Itália, esta dupla voltou a ficar em segundo lugar nos Campeonatos da Europa.
Filomena Franco conseguiu também participar nos Jogos Paralímpicos de Londres.
Em 2013 Pedro Fraga venceu duas provas da Taça do Mundo em Skiff Peso Ligeiro (Lucern e Eton Dorney) tornando-se o primeiro português a alcançar este feito, sagrando-se ainda Vice-campeão da Europa nos Europeus de Sevilha. No Campeonato do Mundo desse ano, na Coreia igualou a prestação de Henrique Baixinho, em 1988 e obteve o 4º lugar em Skiff Peso Ligeiro.
No ano seguinte em Belgrado, mais um feito para este atleta, em Belgrado na Sérvia subiu ao mais alto degrau da prova e sagrou-se Campeão da Europa em Skiff peso ligeiro.  


quinta-feira, 22 de junho de 2017


D. Carlos e os Desportos Náuticos



A MONARQUIA E OS DESPORTOS NÁUTICOS

O Remo e a Vela constituíram desde sempre, os passatempos de eleição dos monarcas portugueses, como nos conta o Almirante Celestino Soares nos seus Quadros Navais: Referindo-se a João da Bemposta, filho do infante D. Francisco, Duque de Beja e sobrinho de El Rei D. João V – Este filho do infante era muito dado às cousas do mar, como seu pai, que andava constantemente pelo rio no seu iate, acompanhando os navios de guerra que entravam e saiam; mas não era ele que mostrava gosto pela marinha, era El Rei, que subia a bordo dos navios, era a Rainha, que os ia ver a sair a barra e na falta destes espectáculos divertia-se a passear pelo Tejo nos bergantins reais, seguidos de faluas com atabales, trompas, rebecas e outros instrumentos…”

E mais à frente:
Para se fazer idea deste interesse e quasi paixão pelas cousas do mar vamos resumir os avisos que as gazetas fizeram das viagens de Suas Majestades pelo rio, preferindo o trânsito por água de Belém à Madre de Deus, a Caxias, e outros pontos, ao transporte por terra; …”

Ainda nos quadros navais Celestino Soares escreve que tanto D. João V como D. José,
as suas Rainhas, os príncipes e princesas seus filhos, costumavam assistir ao “caimento” dos navios que eram lançados ao mar depois de construídos e que para se deslocarem do Terreiro do Po a Belém preferiam os Bergantins aos Coches Reais.



A GÉNESE DA VELA E DO REMO DESPORTIVO EM PORTUGAL
A origem do Remo como ptica desportiva em Portugal terá tido o seu início no princípio do século XIX.
Até essa data, o seu exercício estava reservado aos profissionais, sendo contudo conhecidas disputas entre embarcações de transporte de passageiros e entre as guarnições dos navios da Armada Real, as quais despertavam o interesse de multidões que afluíam às margens e aplaudiam com entusiasmo.

A ptica do Remo em Portugal, enquanto desporto organizado, terá começado em 1828 com a fundação do Arrow Club por Abel Power Dagge, os irmãos Pinto Basto e alguns elementos da colónia britânica residente na metrópole, segundo documentos inéditos que nos foram recentemente facultados pela família Dagge.
Do referido acervo documental constavam as actas de fundação de várias associões náuticas, a sua correspondência e deliberações das Assembleias Gerais, assim como merias de Abel Power Dagge, membro fundador da Real Associação Naval e do Clube Naval de Lisboa, quiçá o primeiro desportista náutico a existir em Portugal.

Segundo José Pontes, no seu livro Quasi um século de desporto, a primeira regata de desportistas amadores oficialmente realizada em Portugal foi de Remo, corria o ano de
1849, promovida por Abel Power Dagge. Logo no ano seguinte, em 1850, este inglês de barbas compridas, coadjuvado por Edward Shirley, Alex Hudson e Alex Hangcock, aproveitaram a estadia da nau britânica Vixen no Tejo para organizar a Primeira Carreira de Barcos à Vela, tendo participado cinco veleiros todos pertencentes aos ingleses.

São lebres, pelo menos a partir de 1852, por ocasião dos festejos anuais de Po de Arcos, as Regatas em barcos à vela e a remos, promovidas pelo Conde das Alcáçovas e por um grupo de aristocratas, alguns deles ligados à Casa Real, e por elementos da colónia inglesa, nomeadamente os que haviam organizado as regatas dois anos antes. A regata de 1853, foi presidida pelo infante D. Luiz que se fez conduzir a bordo do vapor da Marinha Portuguesa Conde de Tojal. Aproveitando a estadia do barco de guerra inglês Odin, fundeado na Baia de Po Arcos, realizou-se uma corrida de remos entre marinheiros portugueses e ingleses. Do programa de 1854, em complemento às Regatas de Vela, constava a participação de duas guigas de 4 remos, tripuladas por “curiosos.



Na sequência destes eventos, foi fundada em 1855 a Real Associação Naval, a mais antiga agremiação desportiva da Península Ibérica e uma das mais antigas do mundo.
D. Luís, pai de D. Carlos, um apaixonado pelo mar, foi destinado por sua mãe à carreira na Armada, tendo comandado o brigue Pedro Nunes e a corveta Bartolomeu Dias. Por morte do seu irmão D. Pedro V, sem descendente, herdou então o reino de Portugal. Ainda como Duque do Porto, presidiu à Reunião no Hotel Bragança que serviu de fundação à Real Associação Naval, tendo inclusive, proposto este nome em vez de Real Yacht Club.











Na Regata do Tejo em 1854 e depois, na primeira prova organizada pela Real Associação Naval, em1856, o Rei D. Pedro V ofereceu um trou em prata. Por mera curiosidade, ambas as competições foram vencidas pela mesma pessoa Frederico Burnay – O barco vitorioso na primeira regata chamava-se Etoile du Nord e na segunda tinha o nome O Mesmo efectivamente tratava-se da mesma embarcação, que tinha sido serrada ao meio pelo dono da Parceria dos Vapores Lisbonenses no seu estaleiro, devido ao facto do seu sócio A. I. G. Netto, depois de uma noite bem bebida, ter solicitado a Frederico Burnay o fim da sociedade e a consequente divisão em dois da embarcação. No dia seguinte o português, de origem belga, um desportista de eleição e como tal um grande gentleman, levou o seu amigo à Parceria e questionou-o sobre qual era a parte que ele desejava da embarcação que fora dividida ao meio. Não se lembrando das palavras ditas na noite anterior e pedindo desculpas ao seu amigo, solicitou a reparação do veleiro que depois de pronto foi rebaptizado de O Mesmo.

Em 28 de Agosto de 1856, aquela associação organizou uma regata em Po de Arcos que constitui a primeira competição regulamentada, organizada por um clube náutico.

A regata da RAN de 1858 contou com a participação do iate Veloz, propriedade de D. Lz, à época Comodoro daquela associação.
A referida embarcação fora construída com base no modelo do Iate Prenda, um barco que havia recebido como oferta de J. Garland, Abel Power Dagge e Simão Aranha, uma cópia, mais pequena é certo, do Iate América que tinha aportado em Lisboa. Alguns anos mais tarde, em 1876, já Rei de Portugal, mandou construir, no Telheiro das Galeotas Reais, o Iate Sirius, embarcação que ficou com o epíteto do mais português de todos os iates, dado que desde a sua concepção a à obra-prima tudo era nacional. Este veleiro pode ser ainda admirado no Museu de Marinha.



Por intermédio da Real Associação Naval, através dos seus ilustres fundadores Abel Power Dagge e o Conde das Alcáçovas, muito ligado à família real, inicia-se o desporto amador em Portugal, motivado pelo notável incremento dos desportos náuticos, nomeadamente da ptica do Remo e da Vela. Só mais tarde chegaram a Ginástica, o Ténis, o Ciclismo e o Futebol.



O interesse despertado pelo «divertimento das regatas», associado ao gosto e predilecção” da Família Real pelos passeios a remos no Tejo, deram lugar em 1861, à formação de dois grupos de remadores. Abel Power Dagge, um dos fundadores da Real Associação Naval e, mais tarde, também fundador do Club Naval de Lisboa, fazia parte de uma das tripulões. Estes dois grupos de amadores remavam também em guigas de
8 remos, construídas propositadamente para esse fim pelos construtores Luís Silvério de Faria e I. C. Dangebau, que se denominavam respectivamente Lusitânia e Germânia. A guiga Lusitânia, construída em 1862, tinha 42 pés de comprimento e 6 de largura, tendo custado 201,600 reis. Segundo os nossos registos, esta guiga deverá ter sido a primeira embarcação desportiva de remo construída em Portugal e por um mestre português. Destes acalorados desafios resulta a fundação, em Lisboa, do Tagus Rowing Club e do Club dos Remeiros Lusitano, dois dos primeiros clubes de remo instituídos em Portugal. Alguns anos mais tarde, a 18 Novembro de 1891, foi instituído o Club Naval de Lisboa, contando-se entre os seus fundadores, os antigos sócios do entretanto extinto Rowing Club (novo nome do Clube dos Remeiros Lusitano).
Com a introdução, em1878, dos primeiros outriggers de 4 remos, o desporto náutico entra num período de notável incremento, manifestado pelo aparecimento de novas agremiões, no aumento de cios e na realização de certames náuticos promovidos por estas colectividades, sendo exemplo disso, as regatas de Po de Arcos e, mais tarde, as regatas de Cascais e as regatas ao longo da muralha da Junqueira.











D. CARLOS, REI DESPORTISTA SEU CONTRIBUTO NO INCREMENTO DOS DESPORTOS NAUTICOS

A VELA E O REMO

A 28 de Setembro de 1863 nasceu no extinto Município de Belém, no Palácio da Ajuda, D. Carlos de Bragança futuro Rei de Portugal, cientista, diplomata, desportista e um grande Soberano.
Herdou, certamente, de seu pai o gosto pelo mar e pelas coisas náuticas e desde muito cedo mostrou apetência pelo desporto e pelas artes. Excelente pintor, podemos admirar os seus belos desenhos de barcos e das regatas da Real Associação Naval o qual em pequenos blocos de apontamentos desenhava as embarcações que disputavam as provas de Vela e Remo.

Relativamente ao seu primeiro iate, uma oferta de D. Luiz, baptizou-o de Nautilus, demonstrando provavelmente, a sua admiração pela obra de Júlio VerneAs Vinte Mil Léguas Submarinas. O palhabote Nautilus, construído em 1880, no mesmo local do Sirius, foi uma embarcação memovel servindo, anos mais tarde, de escola a muitos amadores da Vela no Clube dos Aspirantes de Marinha e como escola de Vela no Clube Naval de Lisboa, a quem tinha sido entregue pela Marinha Portuguesa depois do
bárbaro assassinato do seu Comodoro.


Em virtude da sua pequena dimensão e apesar de ter alcançado algumas vitórias, nomeadamente, em 29 de Junho de 1885, contra o Yawl Vega, o Nautilus foi relegado para a segunda classe, sendo substituído pelo Aura, um Yawl de 40 toneladas que venceu as regatas de Cascais de 1887 e 1888. Mais tarde D. Carlos adquiriu também os veleiros Corsair, Viking e o Maris Stella.

Na regata da Real Associação Naval de 1889, o Alvor de João António Pinto venceu o Aura de D. Carlos e o Mina de Hermann Moser, tendo D. Carlos oferecido um sextante como pmio. Em 1890, a Real Associação Naval voltou a organizar outra regata em Cascais tendo sido vencedor o Aura do seu Comodoro.

A 1 de Outubro de 1893, já depois da fundação do Clube Naval, a Real Associação Naval organizou uma regata em Cascais na qual competiram o Lia que D. Carlos adquirira nesse ano em Inglaterra, que chegou em primeiro na regata mas devido ao abono que recebia, o Helena de Guilherme Lane foi considerado vencedor. Participaram ainda o Aura, agora propriedade de D. Afonso, o Orion de Dinis de Abreu, o Vega de João Bregaro, o Alda de Ruy D´Orey e o Mina do velho Hermann Moser, que velejava ao leme apesar dos seus provectos 90 anos.

A primeira Corinthian Race (prova em que os timoneiros das embarcações são amadores) realizada em Portugal teve lugar a 8 de Outubro de 1893, na qual participaram D. Carlos ao leme do Lia, José Ribeiro da Cunha timonando o Vega, Guilherme Lane a comandar o seu Helena e ainda o Mina que tinha a dirigi-lo Carlos Schelmick. A prova efectuou-se na Baía de Cascais num triângulo entre Cascais, S. João do Estoril e a Caba do Pato, sensivelmente a 3,5 milhas do Bugio. D. Carlos chegou primeiro à meta mas como o Vega recebia abono do Lia foi considerado o vencedor.

No Centenário de Santo António, a 29 de Junho de 1895, foi organizada uma Regata Internacional de Vela na tentativa de promoção da cidade de Lisboa, tendo sido enviado convite aos principais clube náuticos europeus, convidando-os a inscrever as suas embarcações na prova. Para tal, os pmios eram superiores ao habitual, mas do estrangeiro apenas o cutter Rebelle do Marquês de Torcy se apresentou na Regata contra o Aura e o Lia que foi o vencedor, tendo contudo D. Carlos oferecido o seu pmio ao segundo classificado. Nas provas de remo venceu a Ophélia de D. Carlos, com uma tripulação de cios Real Clube Naval vencendo sete medalhas de Ouro, uma delas faz ainda parte do espólio do Clube Naval de Lisboa.

Em 1896, D. Carlos e D. Amélia passearam-se num escaler de 8 remos durante a Regata de Cascais organizada pela Real Associação Naval na qual competiram nove provas de Remo e seis de Vela. Aquela regata, destacou-se pela grande adesão do público que acorreu à margem para assistir àquele que foi um dos maiores eventos desportivos realizados em Portugal. Nesse dia a vila recebeu seis mil visitantes.



A par da presença em certames náuticos o Rei D. Carlos dedicou muito do seu tempo à ciência nomeadamente à Oceanografia estudando a costa de Portugal. As suas campanhas oceanográficas no Iate Amélia desenvolveram-se entre 1896 e 1907.


No âmbito das comemorações do Quarto Centenário da Descoberta do caminho marítimo para a Índia, El Rei D. Carlos patrocinou vários eventos desportivos e culturais nos quais se incluíam provas de Remo e Vela, tendo talvez sido o expoente máximo do reinado de D. Carlos a nível desportivo. O Rei encarregou a Sociedade de Geografia de Lisboa de encomendar à Casa Leitão e Irmão a concepção de uma obra de arte, destinada a um pmio perpétuo para regatas internacionais de Vela: a emblemática Ta Vasco da Gama. Foram realizadas quatro edições da Ta tendo, após a morte do monarca, ficado guardada no Clube Naval de Lisboa como que a saudar o seu instituidor.

Na primeira edição da prova, em 1898, organizada em Cascais pela Real Associação Naval, a pedido da Sociedade de Geografia, o Lia de D. Carlos competiu contra o Ketch Caridad de Lord Dunraven, num percurso de quatro balizas colocadas em Cascais,
Ponta de Rana, Caba do Pato e Oitavos. A vitória pertenceu ao barco do Royal Yacht Squadron com um grande avanço em virtude de, na tentativa de vencer, o iate português ter içado todo o pano, do que resultou a perda do mastaréu do traquete, logo no início da corrida e, ao rondar a primeira bóia, ter ficado sem o mastaréu da vela grande, invalidando qualquer hipótese de vencer a regata.

Ainda integradas nas comemorações realizaram-se mais 3 regatas de Vela em Po de
Arcos, com pmios monetários e medalhas de prata.
Nas provas de Remo em Lisboa, saíram vencedoras entre outras a guiga Alice, da Real Associação Naval com sete Medalhas de ouro, a guiga Ophelia de D. Carlos, correndo com sócios do Real Clube Naval com sete medalhas de Vermeil, o outrigger Sado do Clube dos Aspirantes de Marinha e, em Skiff, venceu uma medalha de ouro o Sr. Augusto Seixas no Paulo. Nas provas de Escaleres venceram as embarcações de dois barcos ingleses e um alemão, tendo como premio dez libras esterlinas e medalhas de cobre.
Realizaram-se ainda corridas de Ciclismo para Amadores e Profissionais, Singulares e em Tandem com vitorias de Mário Duarte e Sebastião Herédia, um Concurso de Tiro e diversos eventos culturais nomeadamente um Concurso para um drama histórico comemorativo, Concurso para um quadro histórico comemorativo, Concurso para um projecto de habitões económicas (Lisboa, Porto e Covilhã) , Concurso para um projecto de escultura monumental comemorativa e finalmente um Concurso para decorações. Realizaram-se ainda edições filatélicas e numismáticas destas comemorações.

A segunda edição da Ta Vasco da Gama foi novamente realizada em 1901 pela Real Associação Naval, a pedido do clube inglês que era o seu detentor, demonstrando o seu prestígio e a sua qualidade organizativa mesmo fora do nosso país, saindo vencedor o Yawl Leander de Rupert Guiness que derrotou o Lia de D. Carlos e o Tágide de António Medeiros.

A terceira edição da prova, em 1904, foi realizada pela Liga Naval, que havia sido fundada em 1902.
(Nessa altura a recém criada Liga Naval tentou a fusão do Real Club Naval e da Real Associação Naval com o apoio de Vasconcellos Thompson, tendo-se efectivamente formado duas comissões dos clubes para estudar o assunto, não tendo contudo a proposta de união ido avante).
Mais uma vez o Lia de Sua Majestade se inscreveu nesta prova, tendo o Dinorah, do


Conde de Castro Guimarães, Contra-Comodoro do Real Clube Naval como competidor. Numa edição totalmente nacional, Charles Bleck ao leme do Dinorah, venceu a Ta para o Real Club Naval.
1907 Foi o ano da quarta e ultima edição da Ta Vasco da Gama desta feita ganha por D. Carlos, Comodoro do Real Club Naval que manteve a Ta no clube organizador, correndo no Maris Stella, um barco que o Rei tinha adquirido em 1901.

Para comemorar os aniversários do Rei D. Carlos e da Rainha D.ª Amélia, o Real Club Naval de Lisboa decide realizar as Regatas de Cascais em 29 de Setembro de 1901, a que se seguiram nos anos seguintes, na mesma data, regatas idênticas que se celebrizaram pelo seu esplendor. Podemos ler no Livro de actas da Comissão de
Regatas do Real Club Naval de Lisboa que nesta regata existiram provas disputadas por senhoras da sociedade constituindo, provavelmente, uma das primeiras manifestões
de desporto feminino em Portugal.
Nas provas de Remo, a que suscitava mais interesse era a regata entre as guigas de seis remos pertencentes ao Rei e à Rainha D. Maria Pia (que assistia às regatas a bordo do seu caíque Sirius) as quais competiam entre si, respectivamente a Ophelia e a Vega, sendo esta ultima normalmente timonada pelo Infante D. Afonso. Os remadores eram quase sempre cios da Real Associação e do Real Club Naval, sendo os pmios distribuídos nas instalões do Sporting Clube de Cascais.

Entre 1901 e 1905, o Real Club Naval organizou regatas em Cascais, contando sempre com a assistência de Sua Majestade o Rei D. Carlos, a bordo do Iate Lia ou do Amélia, eventos amplamente divulgados na imprensa da época, nomeadamente no Jornal O Sport” de 21/07/1902:
- (...) A natureza, querendo hontem galardoar os esfoos de um punhado de rapazes que n´esta terra ainda se interessam pelo sport náutico, vestiu-se de gala e deu-lhes tudo o que era necessário para esse fim: vento fresco para as corridas de vela; brisa suave
para os espectadores encalmados; lux difusa para os amadores photograficos – que eram bastantes, – e mar de leite para as regatas de remos. Isto posto, vamos ao resultado
d´essa bela festa. Sua Magestade El-Rei assistiu a toda a regata, de bordo do Iate Lya, pertencente a sua augusta esposa. O lindo barco arvorava o distinctivo do Real Club Naval de Lisboa. (...) .

Também em 1902, por iniciativa de Charles Bleck, importaram-se de Inglaterra barcos de uma nova classe de racers, os Bulb-Keels. Mediam 7 metros e eram uns barquinhos muito bonitos e velozes, lia-se na edição de 22 de Setembro de 1902 do DN. Vieram o Geisha para o Conde de Castro Guimarães, o Náiade para Charles Bleck, o Laura para José Libanio Ribeiro da Silva e o Nadedja para El Rei D. Carlos.
Efectuaram-se várias regatas nas quais devido à equivalência das embarcações e ao sistema de marcação de pontos em que se somavam as diversas corridas, a destreza do timoneiro se destacava. Acresce que as velas eram numeradas, facto que provocava grande efeito no público que seguia as regatas com grande entusiasmo.
Efectuaram-se corridas a 13 e a 29 de Junho, a 25 de Julho e a 24 de Agosto. Na última regata, realizada a 21 de Setembro, em Cascais, o Nadedja de D. Carlos foi declarado o vencedor, tendo como pmio uma concha de prata, oferta da rainha D. Maria Pia, igualmente aficionada dos desportos náuticos. O conde de Castro Guimarães ofereceu também um barómetro aneróide como pmio. Nos anos seguintes realizaram-se mais regatas desta classe e a maioria das vezes o barco de D. Carlos era o vencedor.


Ainda no ano de 1902, um dos mais profícuos em disputas náuticas, a Comissão de Regatas de Leixões, dirigida por Alberto Kendall, organizou a primeira Regata Oceânica realizada em Portugal.
Para a organização do evento, pediu apoio ao Real Clube Naval, utilizando o seu
Regulamento de Provas e contando, para a fiscalização da prova, com os seus dirigentes: Joaquim Leotte, como júri de chegada, e Vasconcellos Thompson que foi dar a largada ao porto de Leixões.
No âmbito dos preparativos da regata, a Comissão de Regatas de Leixões em carta dirigida ao RCN, datada de 29 de Agosto de 1902, escreve: “ agradecemos a boa vontade com que esse Club nos auxiliou n’ésta nossa primeira tentativa para a introdução de Corridas de vela no norte do paiz. …”
O Lia de D. Carlos e de D. Amélia inscreveu-se na prova, facto que deixou penhoradíssima a Comissão de Regatas como refere na mesma carta: “ (…) Foi com verdadeiro enthusiasmo que recebemos a notícia telegraphica que S.M. a Rainha se dignou abrilhantar as nossas festas mandando o seu palhaboteLia a Leixões, pelo que a Comissão está penhoradíssima. (…).
A mesma comissão decidiu que se o Lia vencesse, enviaria a Lisboa emissários para entregar pessoalmente o trou, intenção que é referida na carta, de 6 de Setembro desse ano, dirigida ao Real Clube Naval: Se por ventura o Lia de S. M. a Rainha ganhar o primeiro pmio pedimos vénia para podermos mandar uma comissão fazer a entrega a S. M. (…) .
A prova teve que ser adiada de 9 para 10 de Setembro devido ao mau tempo. Foi efectivamente vencida pelo Lia que chegou no dia 12 a Cascais, vencendo um par de serpentinas de prata. As outras embarcações o Helena, o Zephyr, o Vivandiére, o Dinorah e o Diana tiveram que voltar para ts, não aguentando o mau estado do mar. Combinaram efectuar outra regata entre eles, tendo largado no dia 14, à excepção do Zephyr, numa prova que se revelou bastante renhida, da qual saiu vencedor o Diana de Talone que venceu apenas com uma diferença de 2 minutos e quarenta e cinco segundos, tendo com pmio um par de castiçais de prata. (…)
Em 1903 e 1904 as edições da Regata contaram sempre com a vitória do Lia, iate de
Suas Majestades.

Em 1905 a regata Leixões – Cascais foi realizada a 23 de Outubro, tendo desta vez sido organizada pelo recém-criado Gmio do Sport Náutico do Porto, e contou com o patrocínio do Rei D. Carlos que ofereceu o premio para as regatas do dia anterior na capital nortenha.

Aproveitando o apoio e beneplácito do seu Comodoro, Sua Majestade El Rei D. Carlos, o Clube Naval de Lisboa cresceu e difundiu os Desportos Náuticos pelo País abrindo secções e Postos Náuticos em Azambuja, Cascais, Trafaria, Luanda, Lourenço Marques, Portimão, Lagos, Pedrouços e Funchal. Estas delegões evoluíram mais tarde para os actuais clubes existentes nestas localidades.
Em 1904, a pedido do director do CNL, Joaquim Leotte, a Associação Naval de Lisboa, o Clube Naval de Lisboa, o Clube de Aspirantes de Marinha e o extinto Clube Naval Madeirense instituíram a Ta Lisboa em Remo como Campeonato de Portugal, Ta ainda hoje em competição, constituindo a prova desportiva mais antiga do nosso país.
A primeira regata foi realizada a 29 de Maio, tendo lugar ao longo da muralha da
Junqueira, entre as docas de Santo Amaro e do Bom Sucesso.
A Real Associação Naval, o Real Club Naval de Lisboa, o Club dos Aspirantes de
Marinha e o Club Naval Madeirense, promulgam as Bases da Convenção, ao mesmo


tempo que aprovam o primeiro regulamento de regatas de Remo que estabelece as bases para a regulamentação das corridas de embarcações de Remo.
A Convenção tinha como fim último promovero desenvolvimento do rowing portuguez, a ela se devendo o pido desenvolvimento que o Remo atingiu nos anos que se lhe seguiram.



Nas festas da Arrábida, em Setúbal, o Rei D. Carlos promoveu, assistiu e ofereceu o pmio para as regatas de Remo que se realizaram a 1 de Julho de 1906, nas quais participaram todos os clubes da capital, o Antigo Círio de Nossa Senhora da Arrábida, a canhoneira Vouga e o vaso de guerra Bérrio. Realizaram-se também competições de Vela e de Natação. As provas do ano anterior haviam contado com o patrocínio de El Rei que tinha, inclusive, aprovado pessoalmente o Programa das Regatas, inscrevendo na regata de Remo os escaleres do Iate Amélia. As regatas de 1905 iniciaram-se com uma prova à vela entre a Junqueira e Setúbal.







A MOTONÁUTICA E A NATAÇÃO
Em 1906, na Natação, outra modalidade náutica muito apreciada pelo monarca, organizou-se a primeira prova de meia milha marítima, que teve lugar a 14 de Outubro no Alfeite, realizada pelo Real Gimnasium Club Português com o patrocínio e oferta de uma Ta por parte de D. Carlos, na qual se sagrou vencedor Rumsey, pertencente à colónia inglesa residente no Porto.



A partir de 1907 começaram a vulgarizar-se os barcos a gasolina e, como sempre, o Rei D. Carlos foi um dos impulsionadores das novas embarcações, adquirindo o Usona com motor Lozier. Juntamente com o Rei converteram-se à nova modalidade o Conde de Gimenez e Molyna, o Conde de Castro Guimarães, Fernando Anjos, Mariano Cardoso, Alfredo Bleck e George Norton entre outros. A primeira prova a motor oficialmente realizada, de que temos conhecimento, foi organizada pelo Real Clube Naval, a 29 de Setembro, em Cascais com o patrocínio e vitória de D. Carlos.

O REGICÍDIO E A PROCLAMAÇÃO DA RÉPUBLICA
A partir do bárbaro assassinato de D. Carlos e do Príncipe D. Luiz Filipe, a Vela e o Remo perderam muita visibilidade, em grande parte devido à sua ligação à Casa Real e também mercê dos atritos e corte de relões entre a Real Associação Naval e o Real Clube Naval, derivado das contendas das regatas de Remo, em especial da Ta Lisboa, que motivava a mudança de atletas entre estes clubes e o Clube Naval Madeirense, tendo mesmo proporcionado um duelo em Cascais entre Alberto Totta e Carlos Sá Pereira, e a destruição, numa zaragata, da Cervejaria Jansen, no Cais do Sod, na
sequência de um empate entre as guigas Alice e Eleanora, nas Regatas do Centenário de Santo António. Esta desavença entre os dois maiores clubes náuticos portugueses só terminou com um jantar organizado por Mauperrin Santos, Presidente do Comité Olímpico Português, em que estiveram presentes os Presidentes dos dois clubes desavindos, já muito depois da implantação da república, em 1912.


A proclamação da República teve pois repercussões nos Desportos Náuticos, sobretudo na Vela, com o desaparecimento dos Yachts Reais. Consequentemente, os clubes apadrinhados pela Família Real sofreram um duro revés. Pom, lentamente, conseguem reagir reformando os respectivos estatutos, ao mesmo tempo que diversificam a sua acção, tornando-se mais eclécticos, criando secções com diferentes modalidades desportivas, a par de uma intensa actividade cultural e social, patente na organização de festivais náuticos e na promoção de passeios à vela e a remos que movimentam grande número de cios, respectivas famílias e despertam o interesse da sociedade da época.


Só depois, no Estado Novo, através da Mocidade Portuguesa é que a Vela e o Remo voltaram a ter os níveis de participação desportiva e organizativa existente na altura do Reinado de D. Carlos, o que demonstra o quanto os Desportos Náuticos devem a uma das maiores figuras do nosso Portugal, que coma agora a ser recordada como um grande Rei, cuja capacidade democrática é ainda rara no nosso tempo.